sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Pequenos tiranos


tremor repentino ardor pombalino
frieza estóica certeza troika antepassada
confiança aparente constança
ultrapassada
linha fronteira vinha rasteira inglesa
mudança certeza balança
espaço monarquia imaginada
paço elegia abençoada
monarcas sucedidos barcos recebidos
fidalguia acomodada burguesia engajada
revolução liberal resolução geral
convulsão civil discussão viril
instituição tirana ilusão mundana
revoluções novas transformações provas
(diga trinta e três, outra vez)
humanidade corporativa autoridade punitiva
liberdade afirmação verdade implosão
(não mato, setenta e quatro)
mediante ser constante hierarquia
repetida maquia extorsão atlântica
dá-se a explosão tântrica democrática
faz-se a assunção quântica autocrática
europeia inclusão ideia ilusão
certeza história firmeza memória
desfasada ideológica apagada demagógica
afinal há mais Portugal em Lisboa
à toa mestiça presente castiça diferente


M. Lisboa: 2014

Particularidade em escultura - cidade de Lisboa (fotografia: lob77)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Convencional


Sem palavras devorando-nos,
madrugadas insones transformadas impossíveis existências,
cerrados no ascensor contemporâneo.

Viemos de outros tempos e vivemos neles,
desconhecidos a querer tocar o céu,
sabemos quanto querer mas não nos lembramos.

Subsiste a memória do corpo: trabalhemo-la.

Conseguimos trocar as palavras escritas em gestos anunciados,
olhos abertos (ao contrário) para o sonho entrar,
sequências adivinhadas em movimento.

Somos todos os tempos - jogamos neles,
pedaços sem memória una, antropofágicos,
sentimos (quando queremos) para esquecer.

Permanece a memória do espectáculo: celebremo-la.

Pontos de cruz tropeçam-nos até ao encontro,
roubamos lágrimas instantâneas, explodimos surdas gargalhadas,
lambemos cicatrizes invisíveis, trocamos máscaras verosímeis.

As cortinas são cerradas e o sonho desaparece connosco,
os outros são longe desse instante sem pessoa(s),
vai-se a luz temerária do efémero único.

Resiste a memória do ofício: suportemo-la.


M. Lisboa: 2014

Bar do Teatro Taborda - cidade de Lisboa (fotografia: jp_pombas)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Tempo


avançam existem alcançam persistem
ponte ao fundo fonte ou mundo
migram vão seguem são
aqui e lá hora nada aqui e lá ora cada
ficção razão consenso
noção fusão incenso
alcançam insistem descansam resistem
cimento armado tento parado
migram são seguem vão
aqui e lá ora nada aqui e lá hora cada
madrugada ficção alvorada razão
senso afinado tenso apurado
migrar sempre ficar ausente
incógnito propósito 
aves iminentes suaves silentes


M. Lisboa: 2014

Parque das Nações - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Invisível


troa cidade Lisboa verdade
no céu faz-se tormenta
no seu nasce atormenta
mar de casas encavalitadas
corais janelas urbanizadas
bater de asas fechadas
ecoa vontade Lisboa cidade
hipotecam a mente somente
mendicidades autorizadas
cidades pensadas filantropia
transformadas demagogia
denúncia central pronúncia fatal
loa cidade Lisboa vontade
poder hierarquia ler antropofagia
corpos protegidos telhados
mortos esquecidos olhados
mentes atmosféricas vagueiam
lentes periféricas medeiam
soa metade Lisboa cidade
tentos catedrais centros comerciais
cidade consciência idade ciência
muda cronologia surda necrologia
atlântico espaço oceânico laço
míngua identitária língua libertária
voa cidade Lisboa verdade


M. Lisboa: 2014

Miradouro - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Mil novecentos e quantos poetas?


explodiremos surdos literários mudos
protegeremos a pele ardente culturas
cresceremos sempre encantamento só
mente momento pó poemas
esquecidos temas adormecidos
perduram estátuas pontuam fátuas
histórias de arte paz memórias parte mas
fomos realidade linguística dom ubíquo
somos verdade mística tom profícuo
representações alheias emoções cheias
utopias clássicas distopias básicas
tragédia feliz magia comédia se diz
poesia medição coice surpresa foi-se
esculpida beleza vida invenção artística
convenção estilística imposta submissão disposta emoção
estática imaculada mediática cidade turística verdade artística
monocular sem Eça protocolar peça
faltam alfabetos paz espaços abertos mas
prosseguiremos estrelados persistiremos
estimados desconhecidos presentes
tornados enternecidos ausentes
vivos na leitura crivos à loucura


M. Lisboa: 2014

Particularidade em escultura - cidade de Lisboa (fotografia: lob77)

domingo, 2 de novembro de 2014

Gosto presença

     
      O livro ainda não perdera a esperança, o rapaz não desistiria tão rapidamente, era impossível não lhe ter percebido os sentidos; já se habituara ao novo espaço, estava preso entre Sophia e Alegre, mas entristecia-o ter sido alvo de leituras breves. A culpada fora a mãe, são sempre, mas esperaria.

- Lá na escola... não falam desses poetas?
- Falamos de outros.
- Lê só, depois falamos.
- Craveirinha... não parece nome de poeta.

O telefonema paterno despertou-te, o encerramento das reuniões de avaliação estendera-se até ao Bairro Alto, a voz rouca deu-lhe a resposta para estar, há quarenta minutos, esperando-te no restaurante. Abençoaste o seu pragmatismo, eu compro qualquer coisa: almoçamos aí, assim a posição vertical se revelou oscilante. Meia hora depois a campainha, estridente como órgão de catedral, anunciou a chegada do patriarca salvador - também trouxera pastilhas efervescentes, milagres da indústria farmacêutica.

- A colega ainda tem pouca experiência, lecciona há oito anos..., eu estou nesta escola há quase quarenta.
- Desde a revolução?
- Não respondo a provocações. 

A primeira imagem da Europa, aquela que te ficou presa na memória, foi a do aeroporto; milhares de pessoas encavalitavam-se nos pertences, as crianças embrulhadas enroscavam-se, caídas de sono: caídas do sonho. Frio, sentiste frio, sempre agarrada a ele, única referência na diferença; na manhã seguinte, adoptaste o silêncio consentido, outra família.

- Se querias andar com... podias ter ficado a viver no meio deles.
- Pague-me e eu faço isso, abro o meu próprio negócio.
- A vender caça, não? Ganha juízo...
- Já tenho idade para começar a minha vida...
- Neste país não há cubatas.

Sentiste o pulsar do ventre contra a terra, ou o contrário - a adrenalina não deixava perceber, palanca na mira, hesitavas em premir o gatilho; a postura do animal, misto de elegância e orgulho, bloqueara-te o instinto básico (destruição da beleza): não caçavas para comer. Era o ato precedente a mover-te, silenciosamente, a perseguição; o disparo certeiro era o fim.

- Não podes ficar, vão matar-te, não ouves as notícias?
- Vou pegar em armas pelo meu país.
- O nosso país é Portugal.
- O meu país é Angola.

Presa nas certezas herdadas em estantes de biblioteca, longe do livro, perdida no espaço separador entre ficção e realidade. Como estarás? O poder das palavras, múltiplos entendimentos, a desterrar-te: acreditaste que o amor vence tudo, descobriste que o tudo é toda a coisa. Onde estarás? Longe de nós, sempre mais longe de nós, à procura daquilo que levaste contigo, mas o teu coração vive aqui...

- Voltaremos?
- Não sei, tenho medo de o meu país deixar de ser.
- Não voltaremos ao passado, esse acabou.
- Não tenho certezas. 
- Nunca se volta ao mesmo.
- Nem o mesmo.

No espelho, atrás das rugas traçadas pela família criada e carpida,  memória de fé: fervor infantil, disciplina  na adolescência, recusa pela idade adulta, recuperada no luto. Culpa pelo passado.  A correspondência familiar cessara, após o bombardeamento da cidade natal, silêncio absoluto, ficaram recordações. Não serás a filha pródiga. 

- Mamã... quando a Capuchinho voltou para casa?
- Quando tudo terminou.
- E a mãe dela? 
- Lhe contou uma estória.

No meio da cidade, guardado entre paredes, promessa: condenado à reabilitação; nos primeiros dias fora o corpo a proteger-te, expressão cerrada e músculos tensos, depois os laços trazidos do bairro. Outras hierarquias (honras de delito), códigos marginais gradeados, tempo para pensar e ler; os dias de visita são família, o puto traz livros, mas quando ela olha em volta.. faz-te mal, percebes a dor sorrida. Vê-te repetido em múltiplas formas: branco, pobre, cigano, desintegrado, incolor, revoltado, preto, indiferente, castanho dividido, desadequado, punido, dependente, enraivecido, derrotado: tábua rasa. 

- Bolas! O racismo é uma construção social, um universo definido pelo poder aquisitivo. Tu ensinaste-me isso.
- De acordo.
- Então?!
- O sistema muda-se a partir do interior, leva tempo.

M. Lisboa: 2014

Arte urbana - cidade de Lisboa (fotografia: lob77)

sábado, 1 de novembro de 2014

Marca de água


reticências impolutas
oclusão luminescente
evidências ocultas
ilusão evidente
arte momento ave renascida
parte em movimento
cave aparecida
spray inspirado
grafitado ser memória
história subjacente
glória presente instantânea
era contemporânea fera
construtivista cidade
incubadora surrealista
manjedoura arte poder
parte saber convenções
inquestionáveis marcas
parcas referências identitárias
evidências solidárias
modelos adaptados novelos meados
globalização amoral insistes
representação afinal existes
imaginário urbano esquecido
abecedário humano sentido
procura requalificação ideal
apura urbanização social
cria apresenta arte representa Marte
queria a realidade mais parecida
ecoa
a verdade escondida Lisboa

M. Lisboa: 2014

Arte urbana - cidade de Lisboa (fotografia: lob77)