sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Hagiografia contemporânea - 2


Tudo bons rapazes

trio articulado vinha brio ensaiado sardinha
tradição adaptada mangerico nação ensinada rito
António santo possidónio canto preparado popular
assimilado natural paixão feliz que diz são
João as ovelhas o teu sustento
as lendas velhas esse momento estrelado são
Pedro lembrado trovão chaves do céu metrologia
gineceu sacristia vã sangria e hortelã nestas
populares festas avatares paganismo inefável
consumismo fiável cidade cheia realidade meia
orientais mantos ocidentais santos
hagiografia fabricada como a de Jeshua ben Yusef
filosofia alterada: a quem serve?

          M. Lisboa: 2014

Miradouro - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Hagiografia contemporânea - 1


Ponto de partida (açúcar)

universo transverso palavras dedilhadas veículo perfeito
círculo efeito transfusão (de)vida sentida emoção
sabor memória fulgor estória espanto portanto
palavras encantadas mouraria alfama elegia fama
descobertas para navegar o mar de dentro
periferia imaginária geografia elucidária
miragem cidade apregoa viagem verdade Lisboa
traz genealogias misturas faz ideologias culturas
imaterial tradição essencial subversão aos sentidos perdidos
asas batidas grilhões vividos casas partidas milhões esquecidos
estuário lembrança mar intangível imaginário esperança lar invisível
gaivotas insistem cacilheiros portas persistem marinheiros
travessias perpetuadas centro alegorias continuadas dentro
memória trova uma história nova magia no eterno retorno
anuncia abandono cinzento iluminado momento fado
passo adiante desvio padrão terraço instante rio alusão


M. Lisboa: 2014

Cais das Colunas - cidade de Lisboa (fotografia: lob77)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Solavanco


urbano trabalho humano baralho a relação de facto secular
imaginário antepassado actual em dia questão fugidia senão pacto sindical
abecedário alienado som determinado tom cativo sem motivo
exterior ou pior cerrado em nacionalidades ou capacidades económicas
astronómicas patrocinadas poder anunciadas viver
se abençoa Lisboa intensa cidade imensa
segredo adivinha medo mezinha argila industrial vale cobertura abrigo
procura perigo reconstrução constante reposição instante passado
em todos os lados janelas iluminadas solares alimentadas lunares
momentos invisíveis memórias monumentos sensíveis
estórias ferro forjado cerro alteado turismo cultural
epicurismo legal gentileza e tal certeza histórica
evidências os muros cimentados cheios puros acabados alheios
sobrevivências os tempos canibais uéticos letais frenéticos
urbano trabalho humano secular imaginário construído permitido
pelas representações repetidas motivações divididas identidades
alienadas prontuário verdades ilustradas abecedário atlântico sul
profundo azul Lisboa portagem loa viagem em actualidades
ou personalidades económicas astronómicas patrocinadas poder
anunciadas saber vomitam preconceitos hipocrisia debitam preceitos ironia
estabelecem políticas de imigração investem na segurança
dos muros erguidos duros construídos dos seus lares (sem mares)
estabelecem políticas de educação investem na segurança
das paredes erguidas verdades das esquecidas (cem lares)
o poder atraiçoa a outra Lisboa existente cidade corrente
mistura adivinha pura mezinha humana resiliente trama
impermanente universo presente disperso ausente representação 
constante transformação

M. Lisboa: 2014

Instante na paisagem urbana - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

East


erupção de aves nuvens dispersas
urbanização traves urgem funestas
representações de progresso negociações excesso
arquitectura paga patrocinada moldura draga anunciada
diferença apresentada pertença
argila e fogo aquático vacila o jogo enfático
pulsão ladrilhada vulcão enxurrada cromática
apática a estranheza verde raízes a certeza sede países
água o rio fingido o estio aparecido tábua
patinada sem conservação acurada
ondulada em solução homenagem
a pedra medra oceanos voragem enganos
eurocentrismo eclético q.b. hipotético para quem vê
diante parte ou apenas arte mediante Sartre mecenas ou Marte
ou é arte olhar de criança: fotografa parte e avança


M. Lisboa: 2014

Arte urbana - cidade de Lisboa (fotografia: jp_pombas)



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Cerne


crescer dentro adivinhar manter o centro radar
raízes paradas se olharmos matizes aladas se escutarmos
pressuposto ilusão imobilidade entreposto alusão verdade
relativa: rótulo ecologia apocalíptica mas verdadeira
analítica faz certeira prever invisíveis céus humanos
preocupados em manter impossíveis seus mundanos
ocupados em cidades solução saudades adaptação
resignados sem libertar sentidos apartar perdidos
acabados em formatação progresso acção excesso
crescimento adivinhado letal mantimento anunciado final
troncos parados: se escutarmos pontos alados se olharmos
renovação imortalidades alusão verdades
apocalípticas pragas analíticas vagas

M. Lisboa: 2014

Parque das Nações - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

domingo, 9 de novembro de 2014

Olfacto aproximado (final)


Terminar o ensino secundário, contra todas as probabilidades legadas pelo básico, fora o fim da rotina escolar; pensaste na universidade mas caminhaste para o serviço militar, saída aconselhada pelo serviço de psicologia da escola; uma via digna e uma carreira segura, confirmavam os militares, nas sessões de sensibilização anuais. Escolheste a Marinha (não, foi a poesia).

- Há bolsas para a universidade, escrevo-te uma carta de recomendação, reorganizamos os teus turnos e...
- Obrigado por tudo, mas não tenho tempo, quero viajar.
- Se tu não tens tempo... que direi eu?
- Quero sair para voltar diferente.
- A diferença está em nós, podemos viajar quietos, transformando-nos.
- Quero ler o cheiro do mar.

Podes apagar as luzes, impressões de liberdade, escolher onde e com quem estar, ver outras pessoas, falar com elas: comunicar. Primeiro foram as saídas precárias, ela e o puto presentes, a redescoberta do mundo família para veres o bairro, pontes. Ver de novo. Depois a condicional, a intenção absoluta: nunca regressar, seres outro. Ficar cá fora.

- Mamã... a Capuchinho cresceu?
- Claro, acontece isso nas crianças...
- E foi feliz para sempre?!?

Quarenta anos depois, o aeroporto: diferente, tudo diferente; a escada rolante deixou-te num alpendre com portas defronte, sem humanos amontoando-se, referências do passado. Um regresso ao contrário com destino à terra mãe, cortesia do teu filho embarcado, voltas turista à procura. Cem pressas de outros e outras, malas em carrinhos rodados, o teu passo lento avança guiado pela sinalética. Sozinha com uma multidão dentro.

- Venho deixar este caixote, meu irmão falou para deixar aqui...
- Eu não sei quem é o seu irmão...
- Trabalhou aqui.
- Quem? O seu irmão?
- Sim, foi ele quem pediu para eu deixar esse embrulho, são livros.
- Desculpe, agora já percebo algumas parecenças, o meu pai era...
- O dono, lhe reconheço. 
- Como?
- Meu irmão também falou de você e tinha razão.
- Não compreendo.
- Tem olhos de mar.
- …

Não podes falar com ela, vê-la transparente luminescência, como a tudo o resto, não interages; o acidente rápido, despiste imprevisto em piso molhado, foi a tua morte imediata. O funeral com os amigos e os familiares espalhados, choros descobertos e culpas reprimidas, a impossibilidade de poderes voltar para fazeres diferente, fazeres mais, fazeres melhor... fazeres bem. Demoraste a aceitar outra forma de vida, estranha, sem tempo ou elos tangíveis, mas não quiseste abandonar a tua filha: os outros ensinaram-te, vives nos livros, esperas.


M. Lisboa: 2014

Sob o Oceanário - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

sábado, 8 de novembro de 2014

Sem terra


azul em toda a parte para sul ou Marte
estendido betão entendido senão
arquitectura de estado iluminura
passado recente quase presente
representação rio armado chão
envio tornado vão de viagem
portagem numérica céu água
imagem esotérica véu mágoa
sem terra engenharia humana
mas útil invenção pura
em guerra tecnologia insana
paz fútil convenção dura
Natureza criada ergonomia
certeza tornada vazia ou não
transformação habitat mudança
esta avança somos mais cientes
animais viventes como os outros
como poucos


M. Lisboa: 2014

Ponte sobre o rio Tejo - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)