quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Haikai Ano Novo

inverno frio
os passos foram gastos
pedra flor forma

M. Lisboa: 2014

Particularidade em calçada - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Odisseia

peregrinação aprendida poema aventura representação repetida
o tema procura a eterna migração
a moderna desumanização ressuscitou rotas reactivou portas
o mote da esperança futura a trote mas a herança perdura
morte calculada no mar sorte danada azar julgam políticos e
presidentes acusam atípicos mas sorridentes: a sua interpretação
é igual à da televisão banal concentrada na emigração desconsolo
focada na emancipação do golo ou na vitória da selecção
negam a história da imigração

M.Lisboa: 2014

Particularidade em escultura - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Mito estrelado (sem unicórnio ou cavalo)

Quando o mundo ainda não sabia que o era e as estrelas conspiravam entre si, formando constelações, quando a energia invisível que tudo rege e tudo inspira não tinha consciência da sua existência, houve qualquer coisa, uma coisa qualquer. Quase nada transformado em tudo. Um mistério: apareceu o mundo.
 
Ora o mundo, nesse tempo primeiro, estava sem saber que o era e foi-se formando ao acaso, outra força misteriosa, parente das conspirações estrelares. O firmamento, cintilante e extraordinário em criações, viu aparecer uma inusitada estrela amarela, incandescente e diferente: as outras perguntavam-se... criada por quem? Qualquer coisa. Outro mistério: chamaram-lhe Sol.

Como ainda não havia tempo, estavam por imaginar os estranhos seres para lhe dar origem, o Sol não envelheceu quando as estrelas lhe pediram para procurar espaço no mundo; concentrado na viagem e imaginando galáxias, nem deu pelo aparecimento dos planetas: ao sonhar-se criara-os. Ainda um mistério: o sistema solar.

O Sol escolheu um dos planetas para mirar-se em sonho: a esfera azul (a cor mais bonita do mundo) e irrequieta; ao compreender a energia invisível daquele planeta, a estrela amarela não se assustou, percebeu-a múltipla e imanente, era um espelho fluído quebrado em convexo de lava sólida, uma vida mistério: chamou-lhe Terra.

M. Lisboa: 2014

Sob o Rio Tejo - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

domingo, 28 de dezembro de 2014

Borda de água

segundo ciências biologias o mundo: evidências analogias
evoluímos dos animais e progredimos mais pensamos
para existir escapamos para resistir à intuição original
constatação animal a Terra interdependente ter guerra
permanente ser cobardia financeira hipocrisia primeira
a epidemia eurocentrismo racional quem diria? agora
“euromorfismo” global em toda a parte padrões sem arte
patrões investidores senhoras doutores e doutoras
justificada economia apresentada elegia: compra e
consome para ser feliz montra e telefone (vê lá se diz
ou fala contigo para ver se és feliz) amigo consumidor
por favor respiras o mesmo ar mas expiras sem inspirar
ou aspirar liberdade preferes alienar na cidade queres
a qualquer preço vencer um endereço poder trabalho
endividamento um espantalho tormento: compras e
consomes montras e telefones preparados pelo poder
publicitados prazer entretenimento verdade momento
identidade sem pouso: vem o ano novo

M. Lisboa: 2014

Particularidade em horta urbana - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

sábado, 27 de dezembro de 2014

Natureza torta

postais inventados e mais fotografados olhar
pessoal mirar afinal entroncamentos instantes
momentos semelhantes na moderna representação
eterna apresentação em tropeções cem gerações
multiplicadas história catalogadas glória e apreço
total sem preço (afinal vozes caladas atrozes cruzadas
sangue navegador estanque o descobridor conquista
terra à vista berra submete “submente” repete insistente
o pecado original o bocado essencial à total
submissão à leal perpetuação) mudaram-se os tempos
soltaram-se os ventos: centenárias comemorações
ordinárias representações e a fachada cidade Lisboa
acabada verdade apregoa crescimento urbano
incremento ufano: celas habitação nelas habituação
à industrial expropriação à “natural” alienação
de quem não tem asas e esquece quem
não tem casas e acontece também todos os dias
com ou sem Messias

M.Lisboa: 2014
Particularidade em fachada - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Aka

quantas pontes quantos muros plantas
fontes mundos escuros tantas ocultas margens
escutas viagens Lisboa presente entoa pressente
grades artísticas partes místicas intuídas
impressões percebidas ilusões invisíveis
existem possíveis (desistem) acontecem
na cidade (emudecem) a realidade e a ficção
não se conhecem: pois não?

M. Lisboa: 2014

Particularidade - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Geração de 70 - epílogo

Outra presença

nascimento estrelado momento anunciado
dos contos inventados em pontos reforçados
sob a quadra institucional aguarda o capital
religioso acumulado oneroso articulado
inventor de tradições promotor de transacções
identitárias confusões várias injustiças
parcas premissas fracas se a verdade
verdadeira metade da primeira é:
somos pó de estrelas se acreditarmos nelas

M. Lisboa: 2014

Particularidade em jazigo no Cemitério dos Prazeres - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)