terça-feira, 12 de julho de 2016

Tempos

Futuro

O mar será uma muralha, outra vez, as ondas rolarão como vagas guerreiras e invasoras. Os peixes perseguirão outros predadores, será uma vez, livres de anzóis e arpões.

- Monstros marinhos?
- O anverso das simbologias.

A terra como um repositório, inesperado, a lava invadirá o passado presente tornado memória apagada. As árvores submersas renascerão rasteiras para outro princípio.

- Uma coisa diferente?
- Restos de vidas irrepetíveis.

O céu esquecerá o azul, incompleto, as nuvens dissipar-se-ão em fragmentos divididos sem forma ou magia. O vento insistirá em espirais incompreensíveis, sem voz.

- Apagar-se-ão os pássaros?
- E as penas também.

O sol empalidecerá na bruma cinzenta e espessa, inusitado, como um holofote coberto para um cenário sem alguém. A luminosidade estará difusa em partículas sombrias.

- Luz e sombra?
- Continuarão.

A lua prateada perderá o valor místico da imaginação, abandono surreal, esquecida pelas vozes tornadas silêncio absoluto. Matéria pura.

- E as fases?
- Serão invisíveis.


M. Lisboa: 2016

São Roque do Pico - Ilha do Pico, Região Autónoma dos Açores (fotografia: dulcecor)

domingo, 22 de maio de 2016

Tempos

Pretérito mais que perfeito

Não tivera consciência política mas nascera com consciência social: conhecera a miséria. Vivera nela. Com ela. Quisera lutar pela justiça, pela verdade e pela liberdade. Ingénuo, filiara-se num partido, fora um militante de conversas à mesa de café, entre cigarros e bebidas espirituosas. O ímpeto revolucionário esvanecera com a década de oitenta, sedimentara a sua militância num cargo de acessor – área cultural, evidentemente.

- Outra revolução?
- Não há tempo.
- E faltam espaços.

Atirara o dicionário contra a parede, furiosa, e largara a boquilha na secretária. Quisera gritar mas conseguira travar o som na garganta, resfolegara – um animal, a raiva transformara-a num animal, descontroladamente. "Uma senhora que escreve versos", repetira a frase lida, cada palavra no seu tempo certo, definição de poetisa. A ilha, a freguesia, a família, a tradição, a sociedade. Poeta, decidira naquele momento, seria poeta.

- O senhor escreve versos?
- Poesia.
- O meu pai era cantador.

O padre segurara metade da laranja, olhos fechados, concentrara-se para não se deixar embalar pelas ondas, o doce do fruto substituíra o sabor acre do enjôo. Os outros homens, pescadores, por respeito ao seu papel de mediador entre o céu e a terra, haviam deixado de o fitar, ocuparam-se na faina. As nuvens quebraram o céu que ameaçara tornar-se cinzento, tomaram formas insensíveis ao desaparecimento do azul, perpetuaram-se para iniciar a tormenta.

- Teologia da libertação.
- Não estamos no outro lado do Atlântico.
- No meio é que está a virtude.

O poeta integrara um dos catetos, um novo estrato na realidade insular, protegido pelo conforto do funcionalismo público. Conseguira vender-se apenas o suficiente, repetira-o para si próprio, sobrevivera à nação, uma ilha, afastado da metrópole. Sobre viver. Fora essa a sua intenção: tragar a vida, converter em fúria vivente todos os livros, acender todos os poemas no quotidiano – culpa do avô, o anarquista.

- Tem qualidade literária.
- Evidentemente.
- O problema são os protagonistas.
- Obviamente.
- Censura-se, portanto.
- Absolutamente.

Mais uma freguesia, não eram todas iguais mas semelhantes, um adro de igreja como praça central, gente reunida em forma de multidão – roupa escura, muita roupa escura, mulheres com lenço na cabeça e mãos cerradas nos xailes, olhos no chão; os homens adiante. Barbas, bigodes e patilhas – fartos. E as crianças. Seres acumulados em brincadeiras, intransigentes ao redor, luz a quebrar o soturno.


M. Lisboa: 2016

São Roque do Pico, Ilha do Pico - Região Autónoma dos Açores (fotografia: dulcecor)

terça-feira, 29 de março de 2016

Tempos

Pretérito perfeito

A mulher deixou-se ficar na soleira da porta, braços caídos, a fitar o chão. Teve medo de encarar o homem, sentado à mesa, por não saber esconder o medo: como seria ele? O regedor, quando a chamara, fora peremptório, explicara-lhe a situação com palavras complicadas. Trataria da casa de um aristocrata, homem da nobreza, que não respeitou as suas origens, um traidor, talvez louco. Exilado. Anarquista.

- O que é isso?
- São pessoas que não respeitam a ordem.
- As ordens de quem?

O homem acendeu o cigarro e aspirou o fumo, com prazer, fitou o oceano que lhe invadia a janela. O orgulho encheu-o, como as vagas sucessivas, sentiu-o no movimento contrário ao ar que expirou: tudo pela nação, nada contra a nação. Soltou uma gargalhada, lembrou-se da forma como o pobretanas lhe entregou os panfletos, dois socos bastaram, norma da legião para os interrogatórios, comunistas, pensou, sem classe ou honra.

- Somos todos iguais, camarada, temos os mesmos direitos.
- E os ricos?
- São ricos por que trabalhamos para eles.

A professora segurou a palmatória e tomou-lhe o peso, recordou-se da sua infância, não conseguiu evitar estremecer, rapidamente... voltou a inteirar-se da sua função: a fotografia e o cruxifixo. Avançou para a primeira fila da classe e, sem emoção exterior, ordenou à criança que estendesse a mão: aplicou o castigo sem que as lágrimas e os gritos a comovessem. Silêncio absoluto. Depois.

- Senhora professora, o meu pai é pescador e...
- Alguém lhe deu permissão para falar? No dia do exame deverão trazer sapatos.
- Nosso Senhor Jesus Cristo também andava descalço.

O vento trespassou-lhe o corpo, frio como o azul estendido à sua frente, no sopé da montanha, percebeu-se quase livre. Adjacente. Transformado em ilha. Sem causas ou lutas, sem interlocutores, com a solidão preenchida em livros lidos e relidos, consecutivamente, só.

- O trabalho é simples, limpar a casa, lavar a roupa e preparar as refeições.
- Sim, senhor.
- E contar-me tudo o que vê. Tudo.

A criança quis fugir, sentiu o perigo imediato, o corpo não lhe respondeu; encontraram o cadáver no dia seguinte, foi sepultada na vala comum, não se lhe conhecia família. O cais foi a sua casa, ali mendigou pão e a caridade de alguns – quase sempre forasteiros, os outros viram-na como parte do cenário: um ponto de fuga.


M. Lisboa: 2016

São Roque do Pico, Ilha do Pico - Região Autónoma dos Açores (fotografia: dulcecor)

quinta-feira, 24 de março de 2016

Tempos

Pretérito imperfeito

O homem procurava encontrar coragem onde sabia que ela não existia, não tinha nada a perder, por isso, entrou na sacristia – a hesitação fora quase imperceptível para quem o observava. Na freguesia nada acontecia sem que, mais cedo ou mais tarde, se soubesse: tudo era domínio público, o privado inexistia, o maldizer disfarçava-se de moral e punha a máscara da tradição.

- É igual à mãe, dali não se pode esperar nada.
- Mas... é uma criança.
- Foi criada no vício do rendimento social: falta-lhe humildade.

Faltava, sobretudo, inteligência – era este o pensamento que a sossegava, já havia ultrapassado a ingenuidade de quem sonha tornar o mundo mais justo - não existem pessoas más, todo o ser humano tem algo de bom, há sempre espaço para a mudança. Tivera apetência pelo sofrimento, um complexo de mártir: isso acabara.

- Para nos levantarmos... precisamos de cair.
- E se escorregarmos?
- O melhor, minha filha, é sabermos onde pomos os pés.

Olhou para as mãos, estavam limpas – aparentemente, o vermelho não desaparecia. A memória do acontecido, há tanto tempo, tornara-se naquela ilusão persistente, uma mancha perene e invisível aos outros. Morna, a cor quase primária insistia em aparecer-lhe, quase sempre, mal ultrapassava o portão do cemitério.

- O sangue lava a honra.
- E a verdade?
- Quando calha.

Nome de santa, a vila tinha nome de santa, o pensamento trespassou-a, inútil. Deixou-se ficar junto ao cais, ignorava os olhares dos homens no café defronte, ciente do seu cheiro a vinho e suor, fitava a outra ilha para fingir poder ser livre. Imaginava-se um peixe ou um pássaro, um animal qualquer, uma coisa com capacidade para sobreviver sem ter de vender o corpo.

- Quero confessar-me.
- É a primeira vez que entras aqui.
- Também pode ser a última.

A criança habituara-se ao desprezo, não estranhava que a pusessem de lado, no pouco que conseguia entender do mundo... intuía. Sabia como mendigar afecto, o corpo ainda não lhe permitia fazer como a mãe, por isso, instigava a pena fitando os adultos nos olhos – lágrimas fingidas à beira do abismo, sempre o mesmo: pedinchava.


M. Lisboa: 2016

São Roque do Pico, Ilha do Pico - Região Autónoma dos Açores (fotografia: dulcecor)

terça-feira, 15 de março de 2016

Azul

a invisibilidade sustenta
auto-existente tormenta
azul imaginário
miragem ou mapa?
coragem que escapa
azul ao contrário
luz a decifrar
cruz sem lugar
azul desconhecido
nesta guerra silente
desta terra... ente?
azul intuído


M. Lisboa: 2016
Céu - Lisboa (fotografia: dulcecor)

sábado, 12 de dezembro de 2015

40 anos: os remanescentes


O deputado esticou as pernas e os braços, estava só no seu largo gabinete, podia dar-se a esse luxo sem quebrar a imagem de incansável lutador pelos direitos e liberdades dos concidadãos, afinal... pertencia a um partido liberal e o cumprimento escrupuloso do "para ser" imperava: arreganhar sempre os dentes e lutar até ao fim, nunca esquecer o próprio mérito, evidentemente. Ponderou se seria sensato acender um charuto mas acabou por fumar sem remorsos, um libertário sem complexos, tolerante.

- Somos vítimas de uma crise financeira global...
- O capitalismo não subsiste sem crises.
- Nenhum "ismo" sobrevive sem crises.
- Engana-se.
- Ah, sim?
- O populismo, meu caro, o populismo.

A ministra deixou a leitura do relatório para o final do dia, preferia tratar dos assuntos menos agradáveis nessa altura, sem agitação; primeiro, telefonou à empregada para lhe ditar a ementa do jantar, confirmar o cumprimento das tarefas diárias – com as imigrantes nunca se sabe... não era xenófoba, já perdera a conta aos afilhados entre a criadagem, prova da sua tolerância. E também era sensível a baptismos. Depois de terminar a chamada, sossegada pela supervisão impecável da economia doméstica, começou a leitura do documento: gráficos, tabelas, quadros. Suspirou. O ministério exigia viagens, conferências a toda a hora, reuniões intermináveis e relatórios sucessivos. Uma chatice.

- Cada vez percebo menos o mundo...
- É natural, sucede o mesmo com a maioria das pessoas.
- A nossa tradição é eleger representantes que prometem mas não cumprem e se desculpam...
- As mudanças estruturais exigem tempo, somos uma democracia recente e a nossa sociedade civil...

O professor pousou o livro na secretária e encarou a turma, no olhar duro estava marcado um desprezo profundo, as alunas e os alunos retribuíam a mirada com a indiferença dos adolescentes, na última fila alguns reprimiam sorrisos. Quando o contratara, a directora do colégio fora bastante clara quanto ao nível de exigência: a avaliação deveria corresponder aos parâmetros estabelecidos e estar de acordo com a estratificação social. Determinados alunos não eram classificados com nível negativo. O professor combatera o colonialismo com a força das armas, guerrilheiro pela independência, prescindira das recompensas pela vitória para educar e preparar o futuro. Utópico, sobrevivia ao presente por que sonhava o optimismo, deixara-se de guerras com carnificina: combatia a iliteracia.

- Estes artigos na imprensa internacional incomodam...
- Acha mesmo?
- Claro, os interesses no exterior, sabe como é... os direitos humanos e a publicidade negativa associada.
- Aos direitos humanos?
- ...

O grupo dividia-se em conversas, palavras de transformação soltavam-se das bocas dos homens, quando o som de automóveis no exterior os despertou para lá da troca de ideias e a existência do circundante se impôs. As forças policiais invadiram o espaço abruptamente, coordenadas na execução da violência rápida e eficaz, inquestionáveis. Transformados em prisioneiros, os homens foram conduzidos pelo circuito dos criminosos face à justiça do seu país - um estado de direito.

- Quanto vale a liberdade?
- Não sei se tem preço... mas é valiosa.
- Tem valor?
- Depende.

O jornalista carregou "play" e a voz da entrevistada encheu a sala outra vez, recordou-se de quando iniciara a profissão – a ânsia pela justiça, a busca da verdade, a ingenuidade de que as palavras podem transformar; acendeu um cigarro para afastar as memórias inúteis, concentrou-se nas recomendações do editor. O ruído da cidade morria nos vidros duplos da redacção, por isso as frases proferidas pela jovem mãe ampliavam-se, o jornalista desligou o gravador e abriu uma das janelas.

- Greve de fome.
- Não sei se terá impacto.
- A notícia?
- Ambas.


M. Lisboa: 2015

Movimento no céu - São Roque do Pico, Região Autónoma dos Açores (fotografia: dulcecor)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

40 anos: os antecedentes


O grumete tentava não tremer mas o seu corpo não lhe respondia, a sensação da terra firme, a areia fina entre os pés... deixou-se cair na praia, os joelhos num balanço diferente do ritmo marítimo, enterrou as mãos para não as levar ao rosto: chorava. Duas semanas atrás, tinha perdido a esperança, desesperara pelo excesso de azul salgado, deixara de sonhar para ter pesadelos. A culpa fora dos peixes voadores. Os outros dois sobreviventes do naufrágio também estavam estendidos na praia, era impossível trocarem palavras entre si, partilhavam as mesmas emoções.

- ...
- Que lenda?
- São estórias de marinheiros e navegantes, não quero assustar-te, vais viajar e...
- Não tenho medo, quero saber.
- Nessa parte do mundo... o Sol é tão forte que torna os homens pretos.

O rapaz deixou-se ficar atrás dos outros, preferia não se aproximar dos estranhos, mirava a diferença desconfiado e distante. Por que vestiam tanta roupa? Não os protegeria dos mosquitos e para caçar... abanou a cabeça mas sentiu o olhar reprovador da mãe (que o observava) e recordou-se: um príncipe não julga pela aparência. Decidido a controlar os juízos fáceis, permaneceu no mesmo lugar, enquanto os seus irmãos e irmãs observavam os forasteiros, interrogou-se: seriam machos ou fêmeas? A brancura confundia-o, não se assemelhavam a outros homens, e a sua língua... incompreensível.

- Como é possível não sentir compaixão por aquelas pessoas?
- Não seja ridículo...
- Ridículo? Tem a noção de que vivemos no final do século XIX?
- Somos uma nação europeia e civilizada...
- Considera a escravatura um gesto civilizador, portanto.

O escritor relia a carta todos os dias, embarcara na viagem pelas ilhas desconhecidas para as transformar em ficção, a cada leitura pautada pelo vento forte... as palavras assumiam o tamanho da montanha que lhe invadia o horizonte. As frases arrumadas em parágrafos manuscritos contrastavam com a intensidade do conteúdo, o aparo da caneta registara em tinta azul o ódio pelo sangue da mesma cor, privilégios contestados e dívidas enumeradas em tom de denúncia, injustiças seculares.

- Uma revolução, de facto... Este doce de araçá está divinal!
- Obrigada. Tudo será diferente... acredita nisso?
- Não tenho motivos para acreditar no contrário.
- Muda a gramática mas a sintaxe é a mesma.
- Costurou bandeiras, suportou a causa... porquê este súbito cepticismo?
- Também corrigi panfletos.

A mulher não queria apresentar queixa, tinha o lábio rebentado e o nariz inchado, o rosto era prova da violência a que fora submetida, o agente policial voltou a explicar-lhe os direitos mas a senhora insistia na justiça da punição pelo marido. Enquanto falava, amparava a cabeça entre as mãos, bamboleava o corpo magro. Estavam ambos na soleira da porta, o barulho da telefonia chegava abafado pelas paredes, ela irredutível. O polícia suspirou, como em vezes anteriores – eram poucas as mulheres que denunciavam os companheiros, e não insistiu.

- A guerra não pode ser a única solução, existem outras formas de luta, vamos continuar a insistir nos contactos com o exterior, não desistimos de pressionar na O.N.U. e...
- E vamos continuar na mesma. Não muda nada, são conversas de branco.
- Tu és branco...
- É uma forma de expressão.

A velha tentou gritar mas o som ficou preso na garganta, só o peito soluçava e doía, os ombros subindo e descendo; a aldeia dera lugar a um terreiro queimado, havia corpos empilhados e nem os animais haviam sido poupados, a rapariga olhava tudo sem largar a mão da anciã, o seu braço soluçava como ela, o espanto consumia tudo. As décadas seguintes apagariam as marcas da presença humana, a aldeia só viveria nos episódios contados pela mais velha.

- Quando as árvores engoliram as cinzas da povoação cresceram-lhes ramos torcidos, as suas sombras são as memórias dos antigos habitantes...
- Há memórias nas sombras?
- Como nas nuvens, a magia é sempre a mesma.

Ela deixou cair o alvião quando percebeu que o homem fardado caminhava na sua direcção, a realidade imaginada acontecia; cerrou os punhos e os dentes, baixou o queixo mas não deixou os olhos no chão, explicou que não sabia ler quando o militar lhe entregou um envelope, ouviu-o e então... percebeu o sonho. Um deserto com socalcos feitos de areia vermelha e movidos pelo vento em dunas insustentáveis, um Sol maior a queimar desde o céu iluminado até ao solo. Atravessou o caminho com a folha de papel entre as mãos, rumo à adega onde o marido cochilava, o impossível a acontecer-lhe em cada passo, sem coragem para trabalhar mais. Mas voltaria no dia seguinte.

- A avó perdeu dois filhos durante a guerra.
- Morreram lá fora.
- Ficou sozinha com o avô.
- Fui sempre viúva.


M. Lisboa: 2015


Araçá - S. Roque do Pico, Região Autónoma dos Açores (fotografia: dulcecor)