sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Nome de santo


Vicente olhava o filho com orgulho mas, ao mesmo tempo, sentia-se consternado pela atitude do patriarca: não demonstrava entusiasmo ou alegria. Os três estavam na pequena sala, antecâmara para a biblioteca, sentados ao redor de uma mesa rasteira, os mais velhos fumavam. Aconselhara António a esperar, pelo fim do almoço, para dar a notícia ao avô, uma altura mais calma e propícia a conversas viris; imaginara o velho Ulisses a explodir de alegria mas...

Ao ouvir os argumentos do jovem, percebera o discurso vazio mas obrigara-se a escutá-lo, o velho não interrompera o neto; na sua cabeça, como fotografias sucedendo-se, as razões urgentes da primeira partida, os primários tempos para ser outro, o suor e o sangue. Sempre o sangue. Justificara as atitudes e os comportamentos, é a ordem do mundo: o que posso fazer?, como se os corpos humanos fossem força animal; se não for eu a fazê-lo, será outro: eu recompenso os que são bonzinhos e fiéis... Depois... a outra ilha e outro negócio, mais limpo, delegar tarefas (não vira mais sair-lhes dos corpos a sua fortuna), fugira ao sangue para se educar longe: assinara papéis.

As casas e propriedades, as acções e os comércios, o património, a profissão do notável filho, a (inútil) educação do neto... construíra uma herança com sangue dos outros: a escravatura permitira-lhe apagar o passado, criara fortuna, inventara um futuro. Mas a proximidade da morte... consumia-o em remorsos. Manchavam tudo. O neto queria derramar o mesmo sangue? O velho vira a expressão do filho transformar-se, várias vezes, mas ignorara-o para concentrar o olhar no jovem: repetira a pergunta, recebera silêncio. Ulisses, então, percebera... apenas valeria o silêncio – paciência, aprenderá da pior maneira. Não voltariam a falar no assunto.

A velha Penélope começara a chorar e a rezar, mal o silêncio se instalara; os três ouviram-na soluçar, atrás da porta, avés a Oxum e Santa Efigénia. Mais tarde, quando todos navegarem o mar dos sonhos (e António se esgueirar para fora de casa), a negra subirá ao quarto dele. Deixar-lhe-á, sob a almofada, o talismã fragmentado (única herança da alma que a habita), pesarosa por lhe saber diminuído o poder, triste... por não poder exorcizar o futuro. O jovem fora inequívoco: iria ajudar na defesa de Angola, terra portuguesa, ameaçada pelas forças internacionalistas e pelos terroristas: seria feita a sua vontade.

Nambuangongo, 1962
Avô,
Os homens são animais estranhos, tal como costumas dizer, aqui tenho vindo a aperceber-me de como, inúmeras vezes, é grande a distância entre aquilo que é dito e aquilo que é feito. Ou o seu contrário. As palavras importam: desculpa não ter escutado.
Quero agradecer-te por me ensinares as pessoas e os gestos da terra: quiseste preparar-me para ver os outros. Quero agradecer-te por me teres levado a caçar gambuzinos, quando era criança, e deixado sozinho na floresta à noite: quiseste preparar-me para as mentiras, o engano. Quero agradecer-te também... por me teres tentado mostrar outros mundos na tua biblioteca, podia ter viajado na literatura, imóvel, sem sangue.
Teu neto,
António

Acordara no escuro, sentira o corpo dormente e a cabeça pesada como chumbo, assim os olhos se habituaram à ausência de luz, começara a perceber vultos de outras pessoas. Pensara em falar mas... nada no seu corpo se movera ou lhe obedecera aos pensamentos, sentira a aproximação de dois dos vultos: percebera que não eram portugueses, o coração quisera saltar-lhe do peito – não podia mostrar medo, não tinha medo e ia dizer-lhes isso... – , desmaiara.

- Morreu?
- Não, adormeceu, as ervas são fortes.
- Vai viver?
- Metade dele.
- Ancião, por que o recolhemos?
- Por que perguntas?
- Deixamos todos para trás, a guerra fica e nós passamos sempre, somos guerreiros viajantes.
- Vê isso aí, no pescoço dele? O que é?
- Não sei.
- Nem eu, mas lhe sonhei.
 
Passaram muitos meses até voltar a ser, em modo permanente, até ao quase antes; os primeiros tempos acordado pareceram-lhe sonhos - outra vida, nada lhe era familiar. Ali não ouvia a guerra. Eles eram pastores nómadas, personagens vistas desenho nos livros folheados com o avô, descobrira-os seres humanos: comunhão amoral com a Natureza. Aprendera-se outro ao desaprender os conceitos imperiais. A memória do velho tornou-se tão intensa... passou a visitá-lo nos sonhos, Ulisses aparecia-lhe quando dormiam perto de nascentes, contava-lhe estórias de criar mais sonhos: António acordava depois, certo da sua condição... e vivia. Ali não havia guerra.

Ninguém o tratara de modo compassivo ou caritativo, recuperado das febres e com dores suportáveis, havia sido incluído nas tarefas quotidianas da comunidade, sobrevivência. Comunicavam com ele por gestos mas forçara-se a aprender palavras: faltavam-lhe as pernas mas sobravam-lhe as mãos. O exército português encontrou-o, quase um ano depois, africanizado o bastante para franzir o sobrolho ao som da língua padrão e estalar a sua; dias antes, os pastores haviam-no deixado perto da aldeia onde as tropas o recolheram; prosseguimos com a nossa viagem, dissera-lhe o ancião, a tua termina aqui: nós temos encontro marcado com o infinito.

M. Lisboa: 2014

Parque das Nações - cidade de Lisboa (fotografia: dulcecor)

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